Parada Gay e Populismo Cristão

Podemos interpretar mais corajosamente os textos bíblicos que hoje são usados para condenar, oprimir e marginalizar os filhos de Deus que são gays e lésbicas. As palavras bíblicas ATUALMENTE DISTORCIDAS e culturalmente condicionadas em favor de uma nova força do Senhor, só agradam a uma Igreja que ainda desdenha a humanização, presa em seu metafórico conceito de fé para o povo.
A Igreja deveria conscientizar-se de que não pode afirmar ser o Corpo de Cristo se deixar de aceitar todos aqueles que seriam bem-vindos pelo Cristo.


Teremos muitos preconceitos por contestar, principalmente os daqueles que afirmam falar por Deus.

Claro, priorizar o assunto tornando-o mais um conflito existencial gay, mais do que sado-masoquismo, é sobretudo uma FANTASIA. Esta Igreja que nos aponta o dedo em riste, não é a Igreja que encontramos em nossa comunidade, obrigada a lidar com nossa forte presença. Hipocrisia ou não, nada é tão genericamente rude na prática, embora careça de incontáveis reformas.
Ademais, esta hipocrisia de que podemos nos sentir exclusivas vítimas, é a mesma dispensada aos heterossexuais que tem a camisinha, anticoncepcional e divórcio proibidos por um dogma que reduz a “criação” do homem a uma alienada subserviência. É ainda genitora do preconceito à Teologia da Libertação, e da depressiva manutenção da idéia de um Deus separado do homem pelo mito do Pecado Original.

Poucos sabem, mas o Cristianismo em nada começou como o temos hoje. Na época, os primeiros cristãos eram atormentados por seus opressores judaicos e pagãos, sem perspectiva de futuro. Uma mensagem que pudesse projetar na fantasia tudo que a realidade lhes negava, teve um fascínio extremo. Colocando a fantasia no lugar da realidade, a mensagem cristã satisfazia as aspirações de esperança e vingança, e embora deixasse de aliviar a fome, proporcionava satisfação para os oprimidos. Essas pessoas odiavam intensamente as autoridades que lhes impunham um poder paternal, desejavam governar por si. Embora conscientemente não ousassem matar o Deus paternal, a hostilidade inconsciente ao pai divino manifestou-se na fantasia do Cristo, colocado ao lado de Deus como co-regente, significando que Deus não mais seria o único e intangível.

Mais tarde, uma idéia se popularizaria: a de que Jesus sempre foi um Deus. Esta idéia já trataria de manipular uma evolução, a eliminação dos desejos hostis para com Deus. Milhares de homens antes dele haviam sido torturados, crucificados e humilhados. Se viram nesse homem crucificado um ser elevado á deus, é porque, no inconsciente, consideram-se o deus crucificado. É como se esse povo sofrido também tivesse sofrido a morte na cruz e expiavam dessa forma seus desejos de eliminação do pai. Pela morte, Jesus expiava a culpa de todos, e os primeiros cristãos precisavam muito dessa expiação.

A identificação com Jesus implantava a possibilidade de uma organização comunal sem autoridades, estatutos e burocracia, uma manifestação de tendências revolucionárias com satisfação imediata. Isto porque num espaço de tempo extraordinariamente curto, a cristandade se tornou religião das massas pagãs oprimidas. Estes pagãos, receberam a propaganda cristã com ajuda das atitudes políticas de Paulo, o primeiro importante líder cristão NÃO ORIUNDO DE CLASSES INFERIORES.

Uma interessante expressão política da economia romana em declínio com uma monarquia absoluta, foi o palco para que o sistema social procurasse ser mais tolerado pelos inferiores, o que facilitou a incorporação do Cristianismo e Igreja ao Império ainda interessado na larga classe de sofredores fantasiosos. E originou um conceito decisivo para a tramóia: a salvação já estava preparada para o homem, e o homem para a salvação na vida do Cristo. Os cristãos já não se voltavam para o futuro ou a história, mas sim para trás, uma vez que o aparecimento de Jesus já representava o distractivo milagre. O interesse cosmológico sobreposto ao interesse histórico diminuiu as exigências éticas.

No século II, a Igreja se deparava com uma crescente reaproximação dos cristãos com o Estado, o que intimamente se ligava à renúncia da rigorosa prática santificadora desta mesma Igreja centrada na contenção e “espairecimento” das massas. E eis mais uma reviravolta: mesmo com perseguições ocasionais, a Igreja inicia sua reconciliação com o Estado.

Muito mais aconteceu desde então, do Concílio de Nicéia até a entrada de Maria para perspectiva da fé, como meio de associá-la à bem-aventurança da Igreja.

Estratagemas e estratagemas, até a indefinição de hoje. Se você leu até aqui, não deixe de refletir sobre isso. Ainda mais quando alguém esquecer que a Igreja não é santa, e sim mais uma pobre pecadora. Destrato aos leprosos, inquisição, omissão no nazismo, no período racista americano... Não esqueço de listar algumas das razões, não para retrucar algum idiota que me ataque com meras palavras, mas para me defender do pior tipo de cegueira: a que obscuriza minhas próprias potencialidades sem devida menção à história e sua crítica.

Este será o primeiro texto de trÊs que pretendo postar aqui falando a este respeito (abordarei trechos bíblicos e posições sociais), em virtude da 11ª Parada Gay em São Paulo. Embora a Parada Gay ainda não se firme, na minha opinião, como suporte real de luta por direitos inalienáveis, também não vejo com bons olhos as acirradas críticas.


Expiar o mundo gay não é uma solução plausível. Esperar que a representatividade gay se fizesse mais “perfeita” para receber APROVAÇÃO, seria conivência com um ardiloso JOGO DA SOCIEDADE, esta enigmática dama que ainda não consegue se definir nem dama, nem puta.
Intelectualizar o movimento como se vê na Europa ou nos EUA é também retroceder e despersonalizar, pois pasmem, determinadas questões por lá são muito mais complexas que as do Brasil, para suas respectivas comunidades gays.

A Parada Gay em SP, portanto, é autêntica e irremediavelmente valorosa como meio de expressão, da maneira como é.

Um comentário:

Sergio Ripardo disse...

Será q algum dia a igreja mudará? Espero estar vivo neste dia.